A união dos opostos num nível mais alto da consciência, como já mencionamos, não é uma questão racional e muito menos uma questão de vontade, mas um processo de desenvolvimento psíquico, que se exprime em símbolos. Historicamente, este processo sempre foi representado através de símbolos e ainda hoje o desenvolvimento da personalidade individual é figurado mediante imagens simbólicas. Tais fatos se me apresentaram da seguinte maneira: os produtos das fantasias espontâneas, de que tratamos acima, se aprofundavam e se concentravam progressivamente em torno de formações abstratas, que parecem representar “princípios”, no sentido dos “archai” gnósticos. Quando as fantasias tomam a forma de pensamentos, emergem formulações intuitivas de leis ou princípios obscuramente pressentidos, que logo tendem a ser dramatizados ou personificados. (Voltaremos depois a este ponto). Se as fantasias forem desenhadas, comparecem símbolos que pertencem principalmente ao tipo do “mandala”. Mandala significa círculo e particularmente círculo mágico. Os mandalas não se difundiram somente através do oriente, mas também são encontrados entre nós. A Idade Média e em especial a baixa Idade Média é rica de mandalas cristãos. Em geral o Cristo é figurado no centro e os quatro evangelistas ou seus símbolos, nos pontos cardeais. Esta concepção deve ser muito antiga, porquanto Horus e seus quatro filhos foram representados da mesma forma, entre os egípcios. (Como se sabe, Horus e seus quatro filhos têm uma relação estreita com Cristo e aos quatro evangelistas). Mais tarde, encontramos um inegável e interessante mandala em Jacob Boheme, em seu livro sobre a alma. É evidente que ele representa um sistema psicocósmico, de forte coloração cristã. É o “olho filosófico”, ou o “espelho da sabedoria”, denominações estas que mostram de modo claro tratar-se de uma summa de sabedoria secreta. A maioria dos mandalas tem a forma o quatérnio, o que lembra o número básico: a tetraktys de uma flor, de uma cruz ou roda, tendendo nitidamente para pitagórica. Entre os índios Pueblo os mandalas são desenhados na areia, para uso ritual. Entretanto, os mandalas mais belos são os do budismo tibetano. Os símbolos de nosso texto acham-se representados nesses mandalas. Encontrei também desenhos mandálicos entre doentes mentais, entre pessoas que certamente não tinham qualquer idéia das conexões aqui mencionadas.
Algumas de minhas pacientes de sexo feminino não desenhavam, mas dançavam mandalas. Na Índia, isto se chama: mandala nritya, que significa dança mandálica. As figurações da dança têm o mesmo sentido que as do desenho. Os próprios pacientes quase nada podem dizer acerca do sentido simbólico dos mandalas, mas se sentem fascinados por eles. Reconhecem que exprimem algo e que atuam sobre seu estado anímico subjetivo.
Nosso texto promete “revelar o segredo da Flor de Ouro do grande Uno”. A flor de outro é a luz, e a luz do céu é o Tao. A flor de outro é um símbolo mandálico que já tenho encontrado muitas vezes nos desenhos de meus pacientes. Ela é desenhada a modo de um ornamento geometricamente ordenado, ou então como uma flor crescendo da planta. Esta última na maioria dos casos é uma formação que irrompe do “fundo da obscuridade, em cores luminosas e incandescentes, desabrochando no alto sua flor de luz (num símbolo semelhante ao da árvore de Natal). Tais desenhos exprimem o nascimento da flor de outro, pois, segundo o Hui Ming Ging, a “vesícula germinal” é o “castelo de cor amarela”, o “coração celeste”, os “terraços da vitalidade”, o “campo de uma polegada da casa de um pé”, a “sala purpúrea da cidade de jade”, a “passagem escura”, o “espaço do céu primeiro”, o “castelo do dragão no fundo do mar”. Ela é também chamada a “região fronteiriça das montanhas de neve”, a “passagem primordial”, o “reino da suprema alegria”, o “país sem fronteiras” e o “altar sobre o qual consciência e vida são criadas”. “Se o agonizante não conhecer este lugar germinal”, diz o Hui Ming Ging, “não em encontrará a unidade de consciência e vida nem mesmo em mil nascimentos, ou dez mil eons”.
O princípio, no qual tudo ainda é um e que portanto parece ser a meta mais alta, jaz no fundo do mar, na escuridão do inconsciente. Na vesícula germinal, consciência e vida (ou “essência”e “vida”, isto é, sing-ming) são ainda “uma só unidade”, “inseparavelmente misturada como a semente do fogo no forno da purificação”. “Dentro da vesícula germinal está o fogo do soberano”. “Todos os sábios começaram a sua obra pela vesícula germinal”. Notem-se as analogias com o fogo. Conheço uma série de desenhos de mandalas europeus, onde aparece uma espécie de semente vegetal envolta em membranas, flutuando na água. A partir do fundo, o fogo sobe e penetra a semente, incubando-a de tal modo, que uma grande flor de outro cresce da vesícula germinal.
Esta simbólica refere-se a uma espécie de processo alquímico de purificação e de enobrecimento; a escuridão gera a luz e a partir do “chumbo da região da água”cresce o ouro nobre; o inconsciente torna-se consciente, mediante um processo de vida e crescimento. (Em total analogia com isto, lembremos a kundalini da ioga hindu). Desse modo se processa a unificação de consciência e vida.