Hoje encontrei um amigo, conversávamos quando notei que lhe faltava um pedaço do dedo. Fiquei chocada, seu trabalho depende de suas mãos, que, diga-se de passagem, sempre o fez com genialidade e maestria. Até que ponto aquela falange que lhe faltava o impediria ou o atrapalharia em sua profissão? O que lhe havia acontecido? Perguntei-me várias vezes mentalmente.
Por sua vez, ele nada me contou, também fiquei na minha e nosso encontro transcorreu como de costume, amistoso e amoroso. Conversamos e nos despedimos.
Mas não me saia da cabeça o que lhe havia ocorrido.
Fiquei sabendo, e mais chocada fiquei, que em um fim de semana, com excessos, bateu a porta do carro em seu dedo, com tamanha força, displicência e inconsciência que foi-lhe um pedaço do dedo! É isso mesmo, a bebida fez com que praticasse essa violência.
Com isso, também não me saia da cabeça o fato de que a vida nos cobra ponderação, parcimônia e respeito para conosco. E, quando não escutamos as palavras da vida, da grande Mãe avisando-nos para não irmos por determinados caminhos, para tomarmos cuidado. E também para aprendermos com nossas lições passadas, tanto as que deram certo quanto as que não deram, para aprendermos com as lições de nossos amigos, familiares ou até mesmo escutar nossos pais, filhos ou outra pessoa que a própria Existência põe em nosso caminho. Ela mesma, a grande Mãe Vida, nos cobra, colocando lições cada vez mais fortes e dolorosas para acordarmos.
Foi isso que aconteceu, foi necessário a vida levar-lhe parte do dedo para que acordasse e refletisse sobre o que estava fazendo consigo mesmo. Afinal, ele ainda tem um grande trabalho social a fazer. Bem, esta última frase é por minha conta, é o que gostaria que tivesse ocorrido com ele, um lampejo, um insight de boa vontade para que superasse sua prisão físico-emocional e se amasse um pouco mais. Ainda não sei qual o caminho que ele optou após esse acidente, mas gostaria muito que parasse por aí, para que a Vida não lhe imputasse uma lição mais decisiva.
A gente sempre escuta que se não aprende em casa, a vida vai lhe ensinar. São tantas vezes ouvindo isso, que não damos bola, a vida vai passando, os acontecimentos mostrando, e a gente não querendo ver. Com a maturidade, começamos a desconfiar do que a vida queria nos mostrar, mas continuamos e continuamos a nos repetir. Quanto mais maduro nos tornamos, tudo fica mais claro, desnuda-se à nossa frente todos os atos repetitivos, que compulsivamente por um motivo ou outro não freamos, ou melhor, não mudamos ou não fazemos diferente. Até que um dia, paramos e ouvimos o que a vida queria nos mostrar, mas quem chega atrasado encontra a porta fechada, e tem de encontrar outra. Essa nem sempre é a que gostaríamos ou a que a vida queria nos apresentar.