Artigos sobre Mandalas

» A técnica do mandala/Parte 2

imagemNa sua estrutura e significado originais, o Mandala quer ser, como já foi dito, uma experiência de participação no arcano jogo das forças agentes do Universo. E, portanto, o seu simbolismo não é redutível a uma representação “esquemática” ou “geométrica” exemplificativa da vida cósmica: trata-se, sobretudo, de uma imagem especulativa, de um “psicocosmograma” (Tucci) da visão total da realidade psíquica profunda. E tal entrelaçamento de energias, expressas simbolicamente, desenrola a relação de interiorizar em quem contempla todas as forças que normalmente existem em um movimento centrífugo. Portanto, como escreveu Jung – “Em completa harmonia com a concepção oriental, o símbolo do Mandala, de fato, não é apenas uma forma expressiva, mas exercita também uma ação, agindo ao revés sobre seu próprio autor. Neste símbolo se oculta um efeito mágico, que deriva originalmente do círculo protetor... (8). Tal movimento centrífugo e centrípeto envolve simultaneamente o movimento circular e o centro do Mandala, expandindo-se à periferia em uma multiplicidade de formas.
O caminho da iniciação se desenrola exatamente através deste caminho inverso, que deve permitir ao adepto superar obstáculos diversos, para depois se estabilizar na unidade tranqüila e imutável do centro.
Ao final do presente trabalho serão necessárias algumas premissas sobre o simbolismo ritual do Mandala, uma vez que a aplicação terapêutica da filosofia que constitui seu pressuposto implica em um caminho que passa através das etapas fundamentais do saber oriental. Dissemos realmente que o Mandala é uma projeção simbólica de forças psíquicas universais; e também dissemos que a iniciação ao Mandala e sua construção ritual permitem ao iniciado aceitar uma “transformação interior” através da participação no drama cósmico da consciência. Alguns símbolos arquetípicos constitutivos do Mandala como demônios, divindades pacíficas – correspondem, em termos psicológicos, àquele fundo obscuro e inquietante do nosso inconsciente, àquele emaranhado de simpatias e repulsas, de paixões e imagens estáticas que povoam a vida psíquica, ameaçando dispersar ou alterar o caminho da realização, quando não existe uma intrínseca força de coesão que saiba reconduzir o múltiplo à unidade.
No mandala ressaltam-se, desde os tempos mais remotos das suas primitivas construções, dois temas estritamente conexos entre eles: “círculo e o quadrado”, que aparecem também desde idades imemoráveis na geometria das obras herméticas e alquímicas. Segundo Tucci o entrelaçamento destes dois motivos, desenvolvendo arquétipos originais do vaso e do lótus, propõe uma viagem de reintegração (11) que o budismo do Grande Veículo e especialmente o Veículo Adamantino colocavam como meta final de salvação, adaptando assim, um simbolismo oculto (mas bem claro ao iniciado) à exigência de liberação das forças psíquicas limitadas pela visão bidimensional da vida. Portanto, antes ainda do círculo e do quadrado, no Mandala aparece à síntese de dois opostos: masculino e feminino; luz e trevas; multiplicidade e unidade. “O Mandala então não é mais um cosmograma, mas um psicocosmograma, o esquema de desintegração do “um no muito” e da reintegração do “muito no um”, naquela consciência absoluta, inteira e luminosa, que o Yoga faz novamente brilhar no fundo do nosso ser (12).
Esta complexidade da existência – que se reflete na passagem que o homem deve completar desde a dissolução dos elementos até a sua reintegração – representa a essência do processo cósmico, expresso pictoricamente na iconografia do Mandala e na representação do quadrado inscrito no interior de um duplo círculo, em cujo âmbito deve mesmo completar-se a viagem como ascensão progressiva à unidade originária, ao centro de conhecimento “. A visualização das experiências interiores e o conflito com as forças primordiais da vida e da morte são os estados arquetípicos desta experiência que, justamente por isto, como foi dito, é por si só terapêutica. O desenvolvimento transpessoal quer ser precisamente uma síntese destas energias antitéticas do drama psicocósmico, que se personificam na polaridade sexual, assim como no ritmo dos elementos, no Sol e na Lua”.
Para sintetizar, o Mandala propõe, simultaneamente, diversas modalidades de leitura simbólica: horizontalmente e verticalmente; do centro à periferia; em outras direções.
A viagem em direção ao centro e as operações que descrevemos correspondem exatamente ao processo de interiorização ou individuação descrito pela psicologia transpessoal de Assagioli e Jung. Também em muitos sonhos, como nas visões espontâneas dos nossos pacientes, através de desenhos para fins terapêuticos e nas fantasias guiadas, encontramos formas análogas ao Mandala. Uma exemplificação esquemática disso poderia ser até o célebre ovóide de Assagioli que propõe uma exploração ativa, quer dos níveis conscientes e inconscientes, quer daqueles superconscientes. Mas retornamos ainda por um instante à estrutura circular e quadrada do Mandala que ressalta a configuração dinâmica de viagem evolutiva; quase um espelho de quatro dimensões da vida e da morte, da integração das energias psíquicas cegas. A imagem é como um “hortus conclusus”, um espaço cercado, que alude ao desenvolvimento interior do Cosmo, que se origina em uma profundidade inexaurível, a partir de um esquema inicialmente bem definido e limitado. Como escreveu Jung – “Os recintos redondos e quadrados no centro têm, por isso, a meta de criar as muralhas protetoras ou ainda um vas hermeticum para impedir uma erupção de desintegração”. Assim, o Mandala indica e favorece uma exclusiva concentração no centro, justamente sobre o SELF. Isto não tem absolutamente nada em comum com o egocentrismo, simplificando, ao contrário uma limitação de si mesmo, indispensável ao objetivo de avaliar inflamações e dissociações (13). Agora, como veremos no próximo parágrafo, um dos intentos fundamentais da terapia com o Mandala é precisamente aquele de desenvolver no sujeito uma atitude de enfrentar, antes de tudo, o recinto, para executar uma comparação com as forças normalmente arcaicas e hostis do inconsciente e que fogem a uma delimitação. Neste sentido, o mandala é também “o círculo que isola um conteúdo ou um processo que não deveria entrar em contato com objetivos externos” (14). E Eliade sublinha exatamente, como se colocar no interior de um círculo ou de um recinto já corresponde a uma “reformulação de espaço”, a uma liberação ritual das forças das trevas (15) e, finalmente, a uma evocação do centro na transfiguração simbólica da existência, identificada pelo mundo antigo em uma imagem arquetípica do Tomenos grego. (Parte 2)

 

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